Evolução Humana - Sinopse

Qual a nossa origem? De onde viemos? O que nos torna humanos e nos distingue dos demais animais? O museu virtual da evolução humana traz ao público informações para responder essas e outras questões importantes para compreendermos a nossa origem. No entanto, encontrar respostas a essas perguntas nem sempre é algo simples. Resgatar o passado pode exigir muito tempo e muita dedicação.

Alguns marcadores são característicos de nossa humanidade, como, por exemplo, o andar bípede, a capacidade de produzir linguagem, a comunicação precisa com outros indivíduos de nossa espécie e o desenvolvimento da expressão simbólica. Portanto, devemos procurar no passado indícios da origem de tais características, assim como explicar o que fixou essas inovações.

Podemos dizer que a história da linhagem que levou ao aparecimento da nossa espécie, remonta a aproximadamente 7-6 milhões de anos, no fim do período geológico conhecido como Miocêno. Data dessa época um fóssil encontrado no deserto do Chade, no continente africano, pertencente a uma espécie de primata cujas características anatômicas do crânio (com 350 cm3), como a posição do forame magnum, indicam já possuir postura bípede, ou seja, essa espécie já era capaz de se locomover em terra sobre as duas pernas. O pesquisador responsável por essa descoberta em 2001, o paleontólogo M. Brunet, nomeou a espécie de Sahelantropus tchadensis.

Com datações próximas as do Sahelanthropus tchadensis, existem outros fósseis cuja morfologia também apresenta sinais de bipedalismo. No ano 2000 foi descoberto no Quênia fragmentos de ossos pós-cranianos de um hominínio fossilizado, dentre os quais parte de um fêmur cuja anatomia indica postura bípede. Esse material foi datado em 6 milhões de anos e a espécie recebeu o nome de Orrorin tugenensis.


Um espécime datado aproximadamente entre 5.8 e 4.4 milhões de anos foi descoberto em Aramis na Etiópia, e foi classificado como Ardipithecus ramidus. Outra espécie do mesmo gênero foi encontrada em uma região próxima e recebeu o nome de Ardipithecus kadabba. Os fosseis de ambas as espécies incluem fragmentos de crânio, dentes e partes do esqueleto pós-craniano. Partes anatômicas, como o fêmur, a pélvis e os ossos do pé indicam a postura bípede dessas espécies. Paleoantropólogos sugerem que uma espécie do gênero Ardipithecus foi o ancestral dos australopitecíneos.

De fato, o mais importante que devemos notar nesse primeiro período, é o surgimento e o desenvolvimento do bipedalismo, uma das características mais marcantes da humanidade. Essas primeiras espécies são classificadas como pré-australopitecíneos. No entanto, essas espécies eram o que podemos chamar de monos bípedes, pois embora andassem sobre as duas pernas, ainda possuíam modo de vida arborícola, como mostram alguns aspectos de sua morfologia.

Isso nos leva a outra questão, pois a anatomia, assim como a reconstituição do paleoambiente em que essas espécies viveram mostram que, diferentemente do que se pensou por muito tempo, o bipedalismo surgiu em espécies que viveram em ambientes de floresta e bosques, ou seja, em ambientes úmidos, semelhantes aos ambientes onde vivem espécies atuais de grandes monos como chimpanzés e gorilas.

Embora existam questões sobre as vantagens e as desvantagens do bipedalismo, as vantagens parecem ter sido maiores para o sucesso evolutivo naquele ambiente, tais como a capacidade para percorrer longas distâncias quando no chão e mãos livres possibilitando carregar alimentos ou objetos.


Os primeiros bípedes evoluíram e deram origem aos australopitecíneos. Até o momento são conhecidas no registro fóssil nove espécies desse grupo. As características anatômicas dessas espécies, no entanto, variam entre formas robustas e formas gráceis, embora a capacidade craniana, se comparada à dos humanos modernos, ainda é bastante reduzida, sendo mais próxima à capacidade craniana dos chimpanzés.

O australopitecíneo mais antigo, datado por volta de 4 milhões de anos, é o Astralopithecus anamensis. Os fósseis dessa espécie foram encontrados no Quênia e entre suas características anatômicas constam dentes caninos relativamente grandes. Os indivíduos chegavam a medir 1 metro de altura. As falanges curvas indicam que, embora bípede, esta espécie ainda mantinha hábitos arborícolas.

A espécie mais conhecida e estudada entre os australopitecíneos é o Australopithecus afarensis, descendente do Australopithecus anamensis. Os fósseis de indivíduos dessa espécie foram encontrados em regiões da Etiópia e da Tanzânia. As datações indicam que o afarensis viveu entre 3.9 e 2.9 milhões de anos. A anatomia do Australopithecus afarensis possui características que lembram a morfologia dos grandes símios, tais como a face projetada para frente e uma capacidade craniana que gira em torno de 430 cm3. Por outro lado, eles também apresentam traços morfológicos que se assemelham mais à anatomia humana que à dos símios, como por exemplo, caninos pequenos e uma arcada dentária parabólica. Um fóssil de uma fêmea dessa espécie foi encontrado nos anos 1970 pelo paleoantropólogo Donald Johanson e colaboradores, e ficou conhecido como Lucy, que foi datada com idade próxima a 3.2 milhões de anos. As falanges curvas de Lucy mostram que o afarensis ainda mantinha um hábito de vida arbóricola, porém combinado ao bipedalismo. A reconstrução do ambiente mostrou que a espécie viveu em ambientes dos mais variados, o que indica que sua alimentação também era bastante diversificada.


No mesmo período em que viveu o afarensis, existiu também uma espécie, com características muito semelhantes às dos atuais monos, conhecida como Kenyantropus platyops, datada em 3.5 milhões de anos. Até o momento ela só foi encontrada no Quênia.

É provável que essas espécies tenham evoluído em linhagens distintas, sendo que uma delas tenha levado ao surgimento do gênero Homo, do qual nós humanos modernos fazemos parte.

Os Australipitecíneos se diversificaram em várias espécies que viveram em um mesmo período. Entre elas estão as espécies robustas conhecidas como o Paranthropus aethiopicus (fósseis encontrados no lago Turkana, datados em 2.5 milhões de anos e com capacidade craniana de 410 cm3), o Paranthropus boisei (encontrado em Olduvai, datado em 2.3-1.2 milhões de anos e com capacidade craniana de 510 cm3) e o Paranthropus robustos (encontrado na África do Sul, datado em 2.5-1.5 milhões de anos com capacidade craniana de 530 cm3). Quanto aos australopitecíneos gráceis, destaca- se o Australopithecus africanus, cujo primeiro fóssil foi descoberto em 1925 na África do Sul por Raymond Dart. Essa espécie viveu entre 3 e 2 milhões de anos.

Os Australopitecíneos surgiram no fim do Plioceno e se extinguiram no Pleistoceno há 1 milhão de anos. Essas espécies sofreram um processo evolutivo que resultou na transição de um estilo de vida semi- arborícola para o bipedalismo estritamente terrestre. Hoje muito se especula sobre qual a espécie de autralopitecíneo teria dado origem ao gênero Homo. Concorrem duas, a saber: uma é o Australopithecus garhi, com fósseis datados em 2.5 milhões de anos, com capacidade craniana em torno de 450 cm3 e redução das características arborícolas, sendo uma das primeiras espécies de hominínios a produzir ferramentas; a outra espécie é o Australopithecus sediba, com fósseis encontrados na África do Sul e datados em 2 milhões de anos, com capacidade craniana de 420 cm3. Suas características anatômicas se assemelhavam bastante com aquelas encontradas nas primeiras espécies do gênero Homo. Parecia estar mais adaptado à vida terrestre que os outros australopitecíneos. Possuia dentes pequenos, pernas longas e falanges curvas, características que apresentam uma combinação de traços encontrados nos australopitecíneos e nas espécies do gênero Homo.


A primeira espécie do gênero Homo a aparecer no registro fóssil foi o Homo habilis, cujo primeiro espécime foi descoberto por Louis Leakey. Supõe- se que o Homo habilis descendeu de alguma espécie de Australopitecus (a transição entre os dois gêneros ocorreu entre 3 e 2.5 milhões de anos). O uso mais intensivo de tecnologia só se deu com o habilis, sugerindo que, em relação aos australopitecíneos, houve um aumento na capacidade cognitiva, o que se comprova quando se observa que sua capacidade craniana era de 650 cm3.

Entre as características anatômicas do Homo habilis constam pernas curtas (media aproximadamente 1 metro), mostrando que eles ainda não tinham todas as adaptações da bipedia moderna. Entre os remanescentes fósseis foram encontrados dentes pequenos e crânios que mostram face bem menos projetada do que nos australopitecíneos. Esta espécie viveu entre 2.0 e 1.8 milhões de anos e fabricava ferramentas de pedras denominadas Olduvaienses, que também foram produzidas por uma espécie de hominínio conhecida como Homo rudolfensis, cujos fósseis foram encontrados no Quênia e datados em 1.9 milhões de anos. Essa espécie tinha uma capacidade craniana em torno de 750 cm3.

No registro fóssil, há 1.8 milhões de anos, surgiu uma nova espécie de hominínio, o Homo erectus, que embora tenha surgido na África, foi a primeira espécie de hominínio a povoar extensas áreas do Velho Mundo, como os continentes europeu e asiático. Esta espécie é bastante conhecida devido a uma grande quantidade de fósseis descobertos. Um desses foi encontrado no leste do continente africano, o esqueleto quase completo de um indivíduo jovem que ficou conhecido como Garoto de Turkana, que media 1.66 m de altura e tinha um crânio com capacidade de 900 cm3. Possuía braços curtos e pernas longas, uma morfologia que muito se assemelha a dos humanos modernos.


Fósseis de Homo erectus foram encontrados também em diversas partes do continente asiático. Crânios e ossos de 1.8 milhões de anos, encontrados em Dmanisi, na República da Geórgia, indicam que essa população de erectus se distinguia do erectus africano, principalmente no que diz respeito à capacidade craniana que gira em torno de 650 cm cúbicos, algo bastante reduzido se comparado aos 900 cm3 do Garoto de Turkana. O Homo erectus também alcançou regiões mais remotas da Ásia, sendo possível encontrar seus fósseis e ferramentas na China, com datação entre 1.7 milhões anos e 300 mil anos, tendo os crânios dessa população de erectus capacidade craniana de 800 cm3. Existem também os fósseis da Indonésia datados entre 1.6 milhão e 30 mil anos, que incluem parte de um crânio e um fêmur descoberto em Java por Eugène Dubois no século XIX. Ainda mais impressionante é que os fosseis da Indonésia chegam a ter 1000 cm3 de capacidade craniana. No contexto tecnológico, o Homo erectus está associado à produção de uma indústria de pedra lascada conhecida como Acheulense.

 Outra espécie do gênero Homo que tem causado muita divergência quanto à sua classificação taxonômica é o Homo heidelbergensis. Estima- se que essa espécie tenha surgido no continente africano e depois ao migrar para a Europa tenha evoluído e dado origem aos Neandertais, sendo aceito que as populações que permaneceram na África deram origem ao Homo sapiens. As datações para o Homo heidelbergensis variam entre 600 - 400 mil anos atrás. Os fosseis de heidelbergensis apresentam um crânio bastante robusto, com torus supraorbital extremamente saliente. Os fósseis remanescentes dessa espécie foram encontrados em diversas regiões do Velho Mundo. O Homo heidelbergensis tem grande importância na história do gênero Homo, uma vez que deu origem a duas espécies, uma extinta e a outra vivente: os Neandertais e o Homo sapiens, nossa espécie.


O Homo neandertalensis surgiu há aproximadamente 200 mil anos e ocupou extensas áreas dos continentes europeu e asiático, tendo sido encontrados fósseis e ferramentas de pedra remanescentes dessa espécie desde a Inglaterra a península Ibérica até em áreas mais remotas de Israel, Iraque, Uzbequistão e sul da Sibéria. As proporções robustas da anatomia dos Neandertais, que incluía pernas, braços e tronco muito atarracados, mostram que esta espécie era adaptada a climas frios.

Os Neandertais estão associados, embora não exclusivamente, à produção de um complexo de ferramentas de pedras lascadas conhecido como Musteriense, que dominou o planeta entre 280-45 mil anos.

Esqueletos e crânios de Neandertais encontrados em Israel, datados entre 40.000 e 50.000 anos, mostram que esse hominínio possuía uma capacidade craniana superior até mesmo a dos humanos modernos, podendo chegar aos 1.740 cm3. Isso tem levado os pesquisadores a uma questão bastante pertinente, a saber, se os Neandertais, assim como o Homo sapiens, produziam e manipulavam símbolos. Chama a atenção para isso, conchas perfuradas e com pigmentos encontradas em sítios como Cueva de los Viones na Espanha que parecem estar relacionados à essa espécie. Para muitos, a prática de sepultar os mortos sugere uma capacidade de pensar de modo abstrato e em uma “vida pós- morte”. Há ainda outra questão, a saber, se os Neandertais falavam tal como o Homo sapiens atual, pois se sabe que os Neandertais possuíam um dos genes responsáveis pela fala, o FOXP2. No entanto, ainda resta muito a ser descoberto para se concluir algo sobre um possível comportamento simbólico nessa espécie de hominínio. O Homo neandertalensis não foi nosso ancestral, mais sim uma linhagem paralela à nossa.


Há aproximadamente 200.000 anos, surgiu, na África, a nossa espécie, o Homo sapiens. Mais tarde, por volta de 50 mil anos migraram para outras partes do mundo, substituindo populações de humanos arcaicos locais como, por exemplo, os erectus, os heidelbergensis e os neandertais. Esse modelo é chamado de “out of Africa”, que se sustenta, entre outras evidências, por fósseis de Homo sapiens muito antigos encontrados no Vale do Rio Omo, na Etiópia. Esses fósseis datam de até 195 mil anos, possuindo capacidade craniana de 1.450 cm3 cúbicos. Análises de DNA extraídos de fósseis de Neandertais e de uma espécie denominada Denisovanos, mostram que houve hibridização entre populações de Homo sapiens que migraram para fora da África e essas espécies de humanos arcaicos. Os Homo sapiens estão associados a uma indústria de pedra lascada denominada Paleolítico Superior.

As datações mais antigas para o continente Europeu colocam a ocupação nessa região pelo Homo sapiens em torno dos 35.000 anos. O último continente que o Homo sapiens colonizou foi a América em datas relativamente mais recentes.

Muitas espécies de hominínios existiram, mas somente a nossa espécie, Homo sapiens, conquistou e se adaptou a todos os ambientes do planeta, desenvolvendo uma dieta flexível composta dos mais variados alimentos. Ainda mais importante, tudo indica que o Homo sapiens desenvolveu a fala tal qual a conhecemos hoje, passou a manipular símbolos e formas abstratas de pensamento, algo que nenhuma espécie animal, nem mesmo outros hominínios, foram capazes de fazer.